Festa / tradição · Conhecida em todo o país

Bumba meu boi

Também conhecido(a) como Boi, Bumba-meu-boi do Maranhão, Boi-bumbá, Boi-de-mamão, Boi-calemba e Boi de reis

Auto popular que dramatiza a morte e a ressurreição de um boi, combinando música, dança e comédia; no Maranhão, ocupa o papel central das festas juninas.

Comparar versões

Uma narrativa da tradição oral. O texto a seguir registra uma lenda ou costume do folclore brasileiro, transmitido de geração em geração como parte do patrimônio cultural do país — não como fato histórico comprovado. Esta história chegou até hoje em 4 versões diferentes, reunidas abaixo.

Origem

Encontro de matrizes europeias, africanas e indígenas, essa é a base sobre a qual se formou o bumba meu boi, já durante o Brasil colônia. Antes mesmo de chegar por aqui, costumes ibéricos já continham brincadeiras com bois de mentira; no Nordeste, por sua vez, o gado real pesava muito na economia das fazendas. O que tornou o folguedo brasileiro singular, contudo, foi o enredo criado por vaqueiros e por mão de obra escravizada, somado a uma base sonora de tambores, matracas e cantos afro-brasileiros.

Desconfiança das autoridades, que chegaram a proibir ou restringir apresentações em algumas cidades, marcou a trajetória do bumba meu boi no século XIX, período em que registros situam Pernambuco e Maranhão como seus principais territórios. Nem por isso deixou de interessar a estudiosos do folclore: Sílvio Romero se dedicou a ele, e, mais tarde, Mário de Andrade o classificou entre as danças dramáticas mais notáveis do país.

Foi justamente no Maranhão que esse folguedo se tornou a manifestação mais importante do calendário junino, dando origem a variações musicais chamadas de sotaques. O Complexo Cultural do Bumba meu boi maranhense viria, com o tempo, a receber dois reconhecimentos de peso: Patrimônio Cultural do Brasil pelo IPHAN e, depois, inscrição pela UNESCO na lista do patrimônio imaterial da humanidade.

Descrição

O desejo de comer a língua do boi mais belo da fazenda, sentido por Catirina, mulher grávida, dá início ao enredo tradicional do auto do boi. Para atendê-la, o marido — chamado de Pai Francisco, ou ainda Nego Chico em certas versões — mata o animal; o amo, dono da fazenda, descobre o crime e dá início à perseguição ao culpado. O desenlace varia conforme a versão: pajés, curadores ou doutores são convocados para devolver a vida ao boi, cuja volta costuma ser celebrada com grande festa.

No Maranhão, repete-se todo ano um mesmo roteiro: ensaios logo após a Semana Santa, batismo do boi na véspera de 24 de junho, apresentações pelos arraiais durante junho e julho, e, por fim, a morte do boi entre julho e dezembro, encerrando o ciclo. Cada grupo possui armação própria — estrutura de veludo bordado com canutilhos e miçangas — que ganha vida através do miolo, brincante escondido sob a estrutura.

Compõem os grupos, que podem chegar a centenas de participantes, figuras como vaqueiros, caboclos de pena e de fita, índias, cantadores e tocadores. É o amo quem puxa as toadas, cantos responsáveis por narrar a história, homenagear santos, louvar a natureza ou falar do dia a dia local. Ainda que cada sotaque imprima sua própria variação rítmica, todos compartilham percussão forte e coreografias circulares em torno do animal.

Características

  • Estrutura de veludo bordado dando forma ao boi, com o miolo dançando por dentro
  • Pai Francisco, Catirina, amo, vaqueiros, índias e cazumbás entre os personagens centrais
  • Coro e percussão respondendo às toadas lançadas pelo amo
  • Sopros, tambores-onça, zabumbas, pandeirões e matracas compondo o naipe instrumental
  • Sequência ritual de ensaios, batismo, apresentações e morte do boi
  • Penas, chapéus de fitas e bordados brilhantes marcando os figurinos
  • Devoção a São Marçal, São Pedro e São João sustentando o calendário

Versões da história

Como toda história passada de boca em boca, esta também muda conforme quem a conta e onde é contada. Veja a seguir as versões mais conhecidas:

Maranhão

Cada sotaque do bumba meu boi maranhense tem ritmo, indumentária e instrumentação próprios. Centenas de pandeirões e matracas marcam o de matraca, também chamado da ilha; a herança africana aparece de forma clara no de zabumba; sopros e cordas enriquecem o de orquestra; mascarados cazumbás dão nome ao da baixada; e o pandeiro percutido com o dorso da mão caracteriza o de costa de mão.

Comparar as versões lado a lado

Significado cultural

Tensão entre trabalhadores e senhores no mundo pastoril colonial é o que muitos leem no enredo do auto do boi: um homem simples desafia o patrão por amor à esposa, e é a própria comunidade, unida, quem resolve o conflito trazendo o animal de volta à vida — transformando, assim, confronto em festa.

Ligado ao calendário agrícola e à devoção junina ao mesmo tempo, o retorno à vida do boi carrega simbolicamente a ideia de renovação. Sustentar um boi, para muitos brincantes, significa cumprir promessa a São João, mas também perpetuar, de geração em geração, saberes de bordadeiras, cantadores e tocadores.

Curiosidades

  • Água benta e padrinhos tornam o batismo do boi, na madrugada de 24 de junho, semelhante em tudo a um batizado verdadeiro.
  • Meio humano, meio bicho: assim é descrito o cazumbá, figura mascarada típica dos sotaques da baixada, capaz de arrancar risos e sustos do público ao mesmo tempo.
  • Dezenas de grupos de matraca se encontram todo 30 de junho, dia de São Marçal, no bairro do João Paulo, em São Luís — um dos maiores eventos do calendário maranhense.
  • A obra de Mário de Andrade sobre as danças dramáticas brasileiras reúne boa parte do material coletado sobre as toadas e os enredos do boi.

Fontes de referência

  1. Mário de Andrade, Danças Dramáticas do Brasil (publicação póstuma, 1959)
  2. Luís da Câmara Cascudo, Dicionário do Folclore Brasileiro (1954)
  3. Sílvio Romero, Cantos Populares do Brasil (1883)
  4. IPHAN, Dossiê de registro do Complexo Cultural do Bumba meu boi do Maranhão

Este texto foi escrito com base na literatura sobre folclore brasileiro. Notou algum erro ou conhece outra versão desta história? Envie uma sugestão.

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