História de origem · Regional

A origem da noite

Também conhecido(a) como Como a noite apareceu, Lenda da noite e O caroço de tucumã

Um mundo que só conhecia o dia, um caroço de tucumã guardando a escuridão: assim a tradição tupi explica como a Cobra Grande deixou a noite escapar.

Comparar versões

Uma narrativa da tradição oral. O texto a seguir registra uma lenda ou costume do folclore brasileiro, transmitido de geração em geração como parte do patrimônio cultural do país — não como fato histórico comprovado. Esta história chegou até hoje em 3 versões diferentes, reunidas abaixo.

Origem

Entre as narrativas mais conhecidas da tradição tupi na Amazônia está a que explica a origem da noite. José Vieira Couto de Magalhães a recolheu em O Selvagem (1876), obra que reúne textos em nheengatu — a língua geral — acompanhados de tradução; segundo o próprio autor, o relato veio de falantes dessa língua na região.

Como ocorreu com outros registros da época, um autor não indígena selecionou, traduziu e organizou essa versão para um público letrado. Ainda assim, nela se preservam traços próprios das cosmologias amazônicas — a Cobra Grande como senhora das águas, a conversão de pessoas e objetos em animais. Câmara Cascudo e incontáveis obras escolares repetiriam o texto depois.

Muitos povos indígenas das terras baixas sul-americanas guardam relatos próprios sobre a origem da noite, com tramas bem diferentes entre si; a versão de Couto de Magalhães apenas se tornou a mais célebre no Brasil. Não convém tomá-la como única, tampouco como representante de todos os povos de língua tupi.

Descrição

No princípio, apenas o dia existia, sem interrupção, e nem bichos nem objetos tinham ganhado sua forma definitiva. A filha da Cobra Grande, casada com um jovem, evitava deitar-se com ele porque a escuridão simplesmente não existia; revelou então que a noite ficava guardada com seu pai, no fundo do rio, e pediu que o marido fosse buscá-la.

Três criados foram enviados à Cobra Grande, que lhes entregou um caroço de tucumã bem fechado, com a ordem de nunca abri-lo. No caminho de volta, porém, os mensageiros ouviram sons parecidos com grilos e sapos noturnos saindo de dentro do caroço; vencidos pela curiosidade, derreteram a resina que o selava, e a escuridão se espalhou instantaneamente.

Tudo na mata se transformou com a chegada repentina da noite: objetos viraram bichos, e os criados, como castigo por terem desobedecido, converteram-se em macacos, com boca e mãos manchadas de resina. Ao perceber o ocorrido, a filha da Cobra Grande separou a noite do dia e criou o cujubim para anunciar a manhã e o inhambu para marcar o entardecer — origem do ritmo do tempo que conhecemos hoje.

Características

  • No início do mundo existia apenas o dia
  • A Cobra Grande mantinha a escuridão sob sua guarda
  • A noite ficava fechada dentro de um caroço de tucumã
  • A curiosidade dos mensageiros espalha a noite pelo mundo
  • Pessoas e objetos se transformam em animais
  • Duas aves passam a marcar a manhã e o entardecer

Versões da história

Como toda história passada de boca em boca, esta também muda conforme quem a conta e onde é contada. Veja a seguir as versões mais conhecidas:

Amazônia, registro do século XIX

Protagonizada pela filha da Cobra Grande, seu marido, os três mensageiros e o caroço de tucumã, esta é a narrativa mais difundida. Termina com o surgimento das aves que sinalizam as passagens do dia e com a transformação dos criados desobedientes em macacos.

Comparar as versões lado a lado

Significado cultural

Por que existem luz e escuridão, por que há tantos animais diferentes: a narrativa responde a essas perguntas como um relato fundador do mundo tal como ele é. Longe de ser vista como algo negativo, a noite surge como condição necessária ao repouso, ao encontro amoroso e ao equilíbrio da existência.

Curiosidade, desobediência e suas consequências também atravessam o enredo. Ao abrirem o caroço, os mensageiros desencadeiam uma mudança irreversível, o que aproxima a história de outras tradições sobre segredos que não deveriam ser revelados; já a filha da Cobra Grande, ao reorganizar o caos, mostra capacidade de impor ordem ao fluxo do tempo.

Curiosidades

  • Fruto de uma palmeira típica da Amazônia, o tucumã tem presença forte na cozinha regional.
  • O canto que anuncia as primeiras horas do dia deu fama ao cujubim.
  • Em língua geral, o texto chegou à sua primeira publicação, depois vertido para o português.
  • A caixa de Pandora, do mito grego, é comparação frequente para essa história.

Fontes de referência

  1. José Vieira Couto de Magalhães, O Selvagem (1876)
  2. Luís da Câmara Cascudo, Lendas Brasileiras (1945)
  3. Luís da Câmara Cascudo, Dicionário do Folclore Brasileiro (1954)
  4. Barbosa Rodrigues, Poranduba Amazonense (1890)

Este texto foi escrito com base na literatura sobre folclore brasileiro. Notou algum erro ou conhece outra versão desta história? Envie uma sugestão.

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