Criatura · Conhecida em todo o país

Lobisomem

Também conhecido(a) como Lobishome, Lubisome e Homem-lobo

Marcado por sina ou maldição, um homem se transforma em fera nas noites de sexta-feira e percorre encruzilhadas e cemitérios até o galo cantar.

Comparar versões

Uma narrativa da tradição oral. O texto a seguir registra uma lenda ou costume do folclore brasileiro, transmitido de geração em geração como parte do patrimônio cultural do país — não como fato histórico comprovado. Esta história chegou até hoje em 3 versões diferentes, reunidas abaixo.

Origem

Licantropia, palavra que vem do grego e significa, grosso modo, homem-lobo, é o termo técnico para uma das crenças mais antigas da tradição europeia: a do homem que se torna lobo, com raízes que remontam à Antiguidade greco-romana. Durante a Idade Média, a ideia se espalhou pela Europa, e em Portugal se consolidou a palavra lobisomem, levada ao Brasil pelos colonizadores.

Sem lobos como os europeus em seu território, o Brasil precisou reinventar a lenda: a criatura passou a ser retratada como um cão enorme, um porco, um bezerro ou uma fera sem forma definida, de pelos arrepiados e olhos acesos. Ao mesmo tempo, absorveu elementos da religiosidade popular católica — encruzilhadas, cemitérios e paróquias —, que ganharam papel central na narrativa.

Uma observação de Câmara Cascudo, na Geografia dos Mitos Brasileiros, reunindo versões de diferentes cantos do país, chama atenção: o lobisomem brasileiro se afastou da lua cheia e se aproximou da sexta-feira, dia carregado de simbolismo na tradição cristã. Folcloristas posteriores confirmaram a presença da lenda em praticamente todos os estados.

Descrição

Para que o irmão ou a irmã mais velha seja o padrinho ou a madrinha no batismo da criança é a recomendação feita a quem quer escapar desse destino — pois, na versão mais difundida no Brasil, o sétimo filho homem nascido depois de seis irmãs (ou o inverso, conforme a região) está destinado a se transformar em lobisomem. Trata-se, nesse sentido, de um homem marcado por sina de nascimento.

Depois de se despir e rolar no chão assumindo forma de fera, o homem precisa cumprir um trajeto por sete pontos — sete povoados, sete cemitérios, sete igrejas ou sete encruzilhadas —, só retornando à forma humana quando o galo anuncia o dia. A metamorfose em si acontece nas noites de sexta-feira, à meia-noite, numa encruzilhada ou em algum lugar onde um bicho tenha se revirado na terra.

De dia, o homem sob a maldição seria reconhecido por sua palidez, magreza, tom amarelado e poucos amigos. Já durante as corridas noturnas, invade galinheiros, persegue cães e assusta quem viaja à noite — alimentando-se de restos e sujeira, segundo certos relatos, ou atacando crianças não batizadas, segundo outros. Para desfazer o encanto, a tradição ensina que é preciso feri-lo até sangrar, tomando cuidado para não ser tocado pelo sangue.

Características

  • À meia-noite de sexta-feira, acontece a transformação
  • Encruzilhadas ou locais onde um bicho se revirou costumam ser o palco da mudança
  • Assume forma de cão grande, lobo ou fera indefinida
  • Antes do amanhecer, cumpre um trajeto por sete lugares
  • De dia, aparenta palidez, magreza e pele amarelada
  • Na maioria das versões, a sina recai sobre o sétimo filho
  • Um ferimento que sangre é capaz de quebrar o feitiço

Versões da história

Como toda história passada de boca em boca, esta também muda conforme quem a conta e onde é contada. Veja a seguir as versões mais conhecidas:

Sudeste e Centro-Oeste

No interior de Minas Gerais, São Paulo e Goiás, prevalece a versão que prende o destino do Lobisomem à posição entre os irmãos: a sina cairia sobre o sétimo filho homem nascido após seis mulheres, evitável apenas se o irmão mais velho fosse seu padrinho de batismo — costume que muitas famílias do campo realmente seguiam.

Comparar as versões lado a lado

Significado cultural

Um vizinho, um conhecido, alguém do convívio diário: é nessa figura comum que, segundo o Lobisomem, a fera pode morar. Na vida do campo, a lenda explicava ataques a criações e ruídos estranhos ouvidos de noite, além de servir para apontar indivíduos vistos como diferentes, doentes ou afastados do convívio social.

Batismo, sexta-feira e igrejas revelam como um mito de origem europeia foi filtrado pela religiosidade popular brasileira. A narrativa funciona, assim, como história sobre destino, falta e redenção, em que livrar-se do mal depende de ritos de fé e da coragem de enfrentar a criatura.

Curiosidades

  • Cão e porco, e não propriamente o lobo — animal ausente da fauna nativa —, são as formas mais citadas nos relatos brasileiros.
  • Pesquisadores documentaram, como prática efetivamente seguida em famílias do campo, o costume de o irmão mais velho apadrinhar o sétimo filho.
  • As ideias de lobo e de homem se unem, a partir do português antigo, na própria origem da palavra lobisomem.
  • Prata e água benta aparecem, em diversas localidades, como objetos temidos pelo Lobisomem.

Fontes de referência

  1. Luís da Câmara Cascudo, Geografia dos Mitos Brasileiros (1947)
  2. Luís da Câmara Cascudo, Dicionário do Folclore Brasileiro (1954)
  3. Alceu Maynard Araújo, Folclore Nacional (1964)
  4. Sílvio Romero, Contos Populares do Brasil (1883)

Este texto foi escrito com base na literatura sobre folclore brasileiro. Notou algum erro ou conhece outra versão desta história? Envie uma sugestão.

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