Personagem · Conhecida em todo o país
Saci-Pererê
Também conhecido(a) como Saci, Saci-Cererê, Matimpererê, Saci-Trique e Saçurá
Perna só, gorro vermelho e cachimbo na boca: assim é o menino que se escafede dentro de redemoinhos para trocar objetos de lugar e desorientar quem passa.
Uma narrativa da tradição oral. O texto a seguir registra uma lenda ou costume do folclore brasileiro, transmitido de geração em geração como parte do patrimônio cultural do país — não como fato histórico comprovado. Esta história chegou até hoje em 3 versões diferentes, reunidas abaixo.
Origem
Existe no Brasil uma ave de canto difícil de localizar, chamada pela ciência de Tapera naevia, que o povo apelidou de saci — empréstimo de um nome mais antigo, o de um espírito do mato cujo assobio parece não ter direção certa. A esse ente, de raiz indígena e tronco tupi-guarani, pesquisadores atribuem o núcleo mais antigo da lenda. Com o tempo, essa base se misturou a outras duas heranças culturais até formar o Saci-Pererê como ele é contado hoje, um dos personagens mais populares do folclore do país.
O gorro vermelho, peça repetida em duendes e trasgos da tradição ibérica como fonte de poder mágico, chegou com a herança portuguesa e espanhola. Já a pele escura e a esperteza ágil e brincalhona vieram da vivência de pessoas escravizadas, incorporadas ao personagem ao longo das gerações. O cachimbo, acessório comum entre homens do campo, completou aos poucos o retrato que se tornaria conhecido de ponta a ponta do território nacional.
A consagração nacional do personagem, porém, veio só no século passado, quando o Sítio do Picapau Amarelo deu ao saci um lugar fixo na imaginação infantil de várias gerações. Antes disso, em 1918, Monteiro Lobato já havia reunido um conjunto de relatos enviados por leitores do jornal O Estado de S. Paulo, material que resultou no inquérito batizado de O Saci-Pererê: resultado de um inquérito e que ajudou a firmar a figura de norte a sul do país.
Descrição
Some tão de repente quanto chega, deixando no ar só um assobio fino e uma risada de quem acabou de fazer travessura — assim conta a tradição sobre o Saci. Uma só perna, pele escura, gorro vermelho na cabeça e cachimbo preso entre os dentes compõem sua imagem mais conhecida. Muitas versões ainda afirmam que ele se desloca em saltos rápidos, viajando escondido dentro dos redemoinhos que levantam poeira e folhas pelas estradas de terra.
É sobretudo lembrado por subir nos cavalos durante a madrugada e embaraçar suas crinas em nós difíceis de desfazer, deixando os bichos exaustos ao amanhecer. Mas as travessuras não param aí: ele some com objetos da casa, deixa a panela queimar, vira o leite e embaraça a linha de costura, além de agitar os animais do curral. Tropeiros e viajantes que se perdem pelas trilhas, não raro, culpam esse pequeno brincalhão pelo próprio azar.
Para afastá-lo, recomenda-se pendurar um rosário ou qualquer objeto repleto de nós, já que ele não resiste à vontade de desatá-los. Capturá-lo exige outro truque: cobrir o redemoinho com uma peneira de taquara e, depois, trancá-lo dentro de uma garrafa bem fechada. Mas é no gorro vermelho que mora, segundo a crença popular, toda a sua força — quem rouba essa carapuça passa a mandar nele, pois fará de tudo para recuperá-la.
Características
- Avança em pulos, já que tem uma perna só
- No gorro vermelho está concentrado o essencial do seu poder
- Pede fumo a quem passa e nunca solta o cachimbo
- Viaja escondido dentro dos redemoinhos de poeira
- Durante a madrugada, embaraça as crinas dos cavalos
- Soma pequenas travessuras ao desaparecimento de objetos da casa
- Peneira de taquara e garrafa bem fechada são as únicas formas de prendê-lo
Versões da história
Como toda história passada de boca em boca, esta também muda conforme quem a conta e onde é contada. Veja a seguir as versões mais conhecidas:
Norte e interior do Sudeste
Relatos de raiz indígena apresentam o saci não como um menino, mas como um ente do mato associado a um pássaro de canto intrigante, capaz de desnortear quem caça ou atravessa a floresta — ninguém sabe de onde vem o som. Na Amazônia, essa mesma ideia se aproxima da Matinta Perera, figura também ligada a uma ave de mau agouro e a pedidos de fumo.
Sudeste
No interior de São Paulo e Minas Gerais, a oralidade costuma distinguir variações do saci: o Pererê, mais famoso e de pele escura; o Trique, mais claro e brincalhão; e o Saçurá, de olhos vermelhos e temido por todos. Essas distinções não são fixas — mudam de lugar para lugar, provando como a tradição multiplica detalhes sobre uma mesma figura.
Sudeste e Centro-Oeste
Em certas localidades, conta-se que o saci nasce dentro dos gomos do bambu, onde passaria sete anos se formando antes de viver por volta de setenta e sete anos. Ao morrer, se transformaria em cogumelo venenoso ou em orelha-de-pau, reforçando, nessa versão, o laço entre o personagem e os ciclos da própria mata.
Significado cultural
A esperteza com que o Saci escapa de apuros e provoca os mais poderosos já foi lida como forma de resistência disfarçada de humor, num mundo rural de grandes desigualdades. Mas é também, e sobretudo, retrato em miniatura da formação do povo brasileiro: um só personagem reunindo traços indígenas, africanos e europeus.
Pequenos contratempos do cotidiano das famílias — um objeto que desaparece, a comida que azeda, um bicho agitado no curral — encontravam explicação nas histórias do saci, que também ensinavam cautela com a mata e com a escuridão. Com o tempo, a figura passou a funcionar como símbolo de identidade nacional, servindo de contraponto a personagens vindos de fora.
Curiosidades
- Reunir relatos do público por meio de um jornal, como fez Monteiro Lobato em 1918, é apontado como um dos primeiros levantamentos desse tipo no folclore brasileiro.
- Em 31 de outubro, diversas cidades e estados celebram o chamado Dia do Saci, pensado como alternativa brasileira ao Halloween.
- Uma ave de canto difícil de localizar herdou o apelido saci, prova de como o folclore se infiltra até na nomenclatura popular da fauna.
- Entre o público infantil, o saci das adaptações televisivas do Sítio do Picapau Amarelo segue como um dos personagens mais lembrados.
Fontes de referência
- Monteiro Lobato, O Saci-Pererê: resultado de um inquérito (1918)
- Luís da Câmara Cascudo, Dicionário do Folclore Brasileiro (1954)
- Luís da Câmara Cascudo, Geografia dos Mitos Brasileiros (1947)
- Monteiro Lobato, O Saci (1921)
Este texto foi escrito com base na literatura sobre folclore brasileiro. Notou algum erro ou conhece outra versão desta história? Envie uma sugestão.
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