Personagem · Regional

Negrinho do Pastoreio

Também conhecido(a) como Negrinho e Crioulinho do Pastoreio

Vítima da crueldade de um estancieiro, um garoto escravizado teria voltado, conforme a tradição gaúcha conta, protegido por Nossa Senhora, depois de um castigo que deveria ter sido fatal.

Comparar versões

Uma narrativa da tradição oral. O texto a seguir registra uma lenda ou costume do folclore brasileiro, transmitido de geração em geração como parte do patrimônio cultural do país — não como fato histórico comprovado. Esta história chegou até hoje em 3 versões diferentes, reunidas abaixo.

Origem

Essa lenda típica do Rio Grande do Sul reúne a lembrança da violência escravista a elementos da fé popular católica, sobretudo a devoção a Nossa Senhora, e nasceu no contexto das estâncias gaúchas de criação de gado dos séculos XVIII e XIX, quando pessoas escravizadas sustentavam boa parte do trabalho regional.

João Simões Lopes Neto deu à história, em 1913, a forma que se tornaria referência, publicando em Lendas do Sul os principais episódios num texto marcado pela fala regional. Mas, antes dessa publicação, o relato já circulava de boca em boca havia bastante tempo, e escritores gaúchos do fim do século XIX chegaram a anotar versões dele.

No decorrer do século XX, poemas, pinturas, esculturas e canções passaram a se inspirar no Negrinho do Pastoreio. Walter Spalding e Câmara Cascudo, entre outros estudiosos, também examinaram a lenda, apontando sua ligação com a fé popular e com a vida cotidiana do campeiro no pampa.

Descrição

Numa corrida de cavalos envolvendo apostas altas, o estancieiro colocou o Negrinho para montar seu baio; perdida a corrida, o patrão enfurecido ordenou que o menino fosse açoitado. Contava-se que esse garoto — sem nome, sem família, conhecido apenas como Negrinho — era afilhado de Nossa Senhora e vivia entre os escravizados de uma estância rica e extremamente cruel do pampa.

Já quase morto após outra surra, foi jogado sobre um formigueiro para ser devorado pelos insetos. Essa punição adicional veio depois de ele adormecer de exaustão enquanto cuidava, sozinho, dia e noite, de uma tropilha de cavalos que fugira sem que ele percebesse — segundo algumas versões, por ação do próprio filho do estancieiro, que teria espantado os animais de propósito.

Dias depois, o estancieiro o encontrou sem nenhuma marca na pele, montado no cavalo baio, trazendo de volta a tropilha perdida, ao lado de Nossa Senhora — cena que o fez cair de joelhos. A partir daí, segundo a crença, o menino passou a vagar pelos campos, e quem perde algo acende um toco de vela pedindo sua ajuda: se nem ele encontrar, ninguém mais encontrará.

Características

  • Menino escravizado, sem nome próprio nem família
  • Era considerado afilhado de Nossa Senhora
  • Sofreu castigos severos nas mãos de um estancieiro cruel
  • Ressurgiu sem nenhuma marca após ser lançado num formigueiro
  • Aparece montado num cavalo baio, guiando a tropilha
  • Ajuda a encontrar objetos perdidos em troca de uma vela acesa

Versões da história

Como toda história passada de boca em boca, esta também muda conforme quem a conta e onde é contada. Veja a seguir as versões mais conhecidas:

Rio Grande do Sul

A versão literária de maior destaque, publicada em Lendas do Sul, narra em detalhe a corrida perdida, o pastoreio imposto, o formigueiro e a aparição final ao lado de Nossa Senhora. Escrita no falar campeiro do Rio Grande do Sul, tornou-se referência da literatura regional do país.

Comparar as versões lado a lado

Significado cultural

Ainda hoje praticada, a devoção ao Negrinho — com velas acesas na busca por objetos perdidos — mostra como a lenda se transformou em rito de fé. Entre as histórias do folclore brasileiro, porém, essa também está entre as que denunciam de modo mais direto a violência da escravidão, revelando a injustiça sofrida pelo menino e sugerindo, pela intervenção divina, uma forma simbólica de reparação que faz da vítima uma figura protetora e milagrosa.

Diversos pesquisadores veem na narrativa também um registro da memória coletiva da população negra do Sul do país, historicamente deixada à margem da imagem oficial da região.

Curiosidades

  • O Negrinho do Pastoreio figura entre os maiores símbolos populares do Rio Grande do Sul.
  • A lenda já inspirou monumentos, canções nativistas e obras de artes plásticas no estado.
  • Em muitas famílias gaúchas, ainda se pratica o costume de acender um pedaço de vela à procura de objetos perdidos.
  • O fato de o personagem não ter nome próprio reforça, de forma simbólica, a desumanização causada pela escravidão.

Fontes de referência

  1. João Simões Lopes Neto, Lendas do Sul (1913)
  2. Luís da Câmara Cascudo, Lendas Brasileiras (1945)
  3. Luís da Câmara Cascudo, Dicionário do Folclore Brasileiro (1954)
  4. Walter Spalding, estudos sobre lendas gaúchas

Este texto foi escrito com base na literatura sobre folclore brasileiro. Notou algum erro ou conhece outra versão desta história? Envie uma sugestão.

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