Personagem · Regional
Matinta Perera
Também conhecido(a) como Matintaperera, Matita Pereira e Matinta
Mulher misteriosa que, segundo a tradição paraense, vira ave à noite e assobia sobre os telhados até ouvir a promessa de tabaco ou café.
Uma narrativa da tradição oral. O texto a seguir registra uma lenda ou costume do folclore brasileiro, transmitido de geração em geração como parte do patrimônio cultural do país — não como fato histórico comprovado. Esta história chegou até hoje em 3 versões diferentes, reunidas abaixo.
Origem
Um pássaro de verdade, o saci ou matintaperera (Tapera naevia), batiza essa figura: seu canto agudo e repetitivo, ouvido sobretudo ao cair da noite, carrega fama de mau agouro em várias partes do Brasil. Entre povos de língua tupi, a ave já estava ligada a espíritos e presságios muito antes de se tornar personagem.
Na Amazônia cabocla, essa crença se cruzou com a figura europeia da bruxa — mulher idosa, dona de segredos, capaz de se transformar em bicho —, dando origem a uma personagem híbrida: ora pássaro enigmático, ora vizinha de carne e osso, que ninguém consegue identificar com total certeza.
Luís da Câmara Cascudo, entre outros folcloristas, notou a proximidade entre a Matinta Perera e o Saci: ambos herdam o nome do mesmo pássaro, mas em regiões diferentes a palavra seguiu caminhos distintos — no Sudeste, batizou o menino de uma perna só; no Norte, ficou associada a essa mulher encantada.
Descrição
Converte-se em ave de penas escuras logo que a noite cai — é o que garante a tradição — e voa sobre os telhados soltando um assobio longo que tira o sono de quem está em casa. Só emudece quando alguém, lá de dentro, promete lhe entregar algo: tabaco, café, cachaça ou peixe, geralmente.
No dia seguinte, aparece à porta uma mulher — desconhecida ou mesmo vizinha de todo dia — cobrando exatamente aquilo que foi prometido, e é assim, segundo se conta, que sua identidade se revela. Quem não cumpre o acordo arrisca o assobio voltar nas noites seguintes, ou mesmo atrair algum azar e adoecer.
Diz-se também que a Matinta não morre sem antes transferir seu “fado” a outra mulher: pergunta, pouco antes de partir, “Quem quer? Quem quer?” — e quem responder “eu quero”, pensando ganhar um presente, herda a maldição e se torna a nova Matinta Perera.
Características
- Mulher idosa com poder de virar pássaro
- Assobio agudo que invade a noite
- No dia seguinte, cobra o que prometeram a ela
- Pede, em geral, tabaco, café, cachaça ou comida
- Passa sua sina a outra mulher antes de morrer
- Castiga com má sorte quem quebra a promessa
Versões da história
Como toda história passada de boca em boca, esta também muda conforme quem a conta e onde é contada. Veja a seguir as versões mais conhecidas:
Belém e interior do Pará
A variante mais popular conta que o assobio só cessa quando alguém promete tabaco — e, no dia seguinte, uma mulher chega para buscá-lo. Famílias inteiras guardam histórias de vizinhas suspeitas que, bem cedo, teriam aparecido pedindo fumo.
Ilha do Marajó e baixo Tocantins
Nesta vertente, a Matinta não age só: um pássaro agourento voa adiante dela, e seria ele o verdadeiro autor do assobio, enquanto a mulher permanece oculta. Isso explicaria por que raramente alguém consegue vê-la de fato.
Comunidades ribeirinhas
Aqui o foco recai sobre a passagem do fado: perto da morte, a velha oferece algo a quem estiver por perto, e quem aceita sem saber se torna a nova Matinta. Por isso a recomendação é clara: jamais aceitar presentes de mulher suspeita de ser ela.
Significado cultural
Qualquer vizinha idosa, solitária ou fora do padrão pode virar alvo de suspeita nessa lenda, que expõe as tensões e a desconfiança típicas de comunidades pequenas. Ao mesmo tempo, reforça a importância de cumprir promessas e manter laços de reciprocidade — afinal, o pedido da Matinta sempre envolve dar algo a alguém.
Crenças indígenas sobre aves agourentas se fundem, nessa figura, com a imagem europeia da feiticeira. No Pará de hoje, a Matinta também vira tema de teatro, música e literatura, tratada com humor e afeto, como parte viva da identidade cultural amazônica.
Curiosidades
- No Sudeste, a ave Tapera naevia dá nome ao Saci; no Norte, é batizada de matintaperera — o que aproxima as duas lendas.
- Ao ouvir o assobio noturno, muitas casas paraenses respondem, de brincadeira: “Vem buscar teu tabaco amanhã!”.
- Músicas, peças de teatro e desfiles culturais em Belém seguem celebrando a figura da Matinta Perera.
- A pergunta “Quem quer?”, dita por ela perto da morte, funciona em várias comunidades como sinal de alerta.
Fontes de referência
- Luís da Câmara Cascudo, Dicionário do Folclore Brasileiro (1954)
- Luís da Câmara Cascudo, Geografia dos Mitos Brasileiros (1947)
- Monteiro Lobato, O Saci-Pererê: resultado de um inquérito (1918)
Este texto foi escrito com base na literatura sobre folclore brasileiro. Notou algum erro ou conhece outra versão desta história? Envie uma sugestão.
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