Criatura · Regional

Minhocão

Também conhecido(a) como Minhocuçu e Minhoca gigante

Verme gigantesco que mora no fundo dos rios, o Minhocão é apontado pela tradição como causa de barrancos que desabam, canoas que afundam e animais que desaparecem nas águas.

Comparar versões

Uma narrativa da tradição oral. O texto a seguir registra uma lenda ou costume do folclore brasileiro, transmitido de geração em geração como parte do patrimônio cultural do país — não como fato histórico comprovado. Esta história chegou até hoje em 3 versões diferentes, reunidas abaixo.

Origem

Ao longo de rios como o Paraná, o Paranaíba, o Araguaia e o São Francisco, o folclore do interior brasileiro situa o Minhocão — criatura aquática lembrada sobretudo em Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais e São Paulo. Viajantes e naturalistas do século XIX, ao recolher entre moradores locais relatos sobre um ser enorme capaz de derrubar margens e arrastar animais, deixaram os primeiros registros sobre ele.

Tanto impressionou os estudiosos da época que alguns chegaram a supor a existência de um animal ainda não catalogado pela ciência; a hipótese foi depois abandonada conforme os folcloristas passaram a situar o Minhocão no terreno da lenda, entre eles Câmara Cascudo, que o incluiu em seu catálogo dos mitos brasileiros.

Ecoa, nesse sentido, a Cobra Grande amazônica e outras serpentes gigantes de tradições indígenas que também habitam o fundo das águas — ainda que, no interior do país, tenha desenvolvido traços próprios, vinculados à vida ribeirinha, à pesca e às grandes enchentes.

Descrição

A tradição descreve o Minhocão como um verme ou serpente de proporções gigantescas, de corpo escuro e cilíndrico, instalado em tocas no leito de rios e lagoas; ao escavar a terra das margens para se deslocar, provocaria desmoronamentos súbitos. Por isso, quando um barranco cede sem explicação ou um rio muda de curso, os moradores da região costumam atribuir o episódio à sua passagem.

Conta-se que ele ataca canoas e arrasta bois, cavalos e porcos que se aproximam da margem, levando até pessoas desatentas. Em alguns relatos, é possível vislumbrar seu corpo — como um tronco enorme deslizando sob a água —, e em noites quietas ruídos estranhos subiriam do fundo, como se algo revirasse o leito do rio.

Lagoas e valas também costumam, em certas localidades, ser atribuídas à sua movimentação subterrânea. Raramente avistado, ainda assim temido, o Minhocão tem a existência deduzida principalmente pelos estragos que deixa — o que só reforça seu caráter enigmático.

Características

  • Tamanho descomunal, descrito entre verme e serpente
  • Mora em tocas escavadas no leito de rios e lagoas
  • Provoca desabamentos nas margens por onde passa
  • Arrasta animais e derruba canoas na correnteza
  • Seria capaz de alterar o curso de rios inteiros
  • Consta de registros deixados por viajantes do século XIX

Versões da história

Como toda história passada de boca em boca, esta também muda conforme quem a conta e onde é contada. Veja a seguir as versões mais conhecidas:

Goiás e Mato Grosso

Buracos, valas e alterações no leito dos rios e lagoas do Brasil Central são atribuídos ao Minhocão nesta versão. Durante as cheias, segundo se conta, ele surgiria para atacar o gado que desce às margens à procura de água.

Comparar as versões lado a lado

Significado cultural

Redemoinhos, cheias, margens que cedem, afogamentos: são perigos reais da vida à beira-rio que o Minhocão acaba materializando. Ao atribuir esses fenômenos a um ser gigantesco, a comunidade encontra uma forma de lidar com o medo e de repassar cuidados, como evitar determinados pontos do curso d'água.

Essa criatura também se alimenta do mistério do que se esconde sob as águas — rios profundos e turvos sempre inspiraram narrativas sobre monstros ocultos, imaginário que o Minhocão representa em sua versão brasileira, ao lado de lendas de serpentes aquáticas de outras culturas pelo mundo.

Curiosidades

  • Em Minas Gerais existe de fato uma minhoca de grande porte, a minhocuçu, capaz de superar um metro de comprimento.
  • Se o Minhocão seria um animal ainda não identificado foi debate levantado por naturalistas europeus do século XIX.
  • O apelido popular “Minhocão”, em São Paulo, batizou o Elevado Presidente João Goulart em alusão à criatura.
  • Os desabamentos creditados ao ser, na realidade, decorrem de processos naturais de erosão das margens.

Fontes de referência

  1. Luís da Câmara Cascudo, Geografia dos Mitos Brasileiros (1947)
  2. Luís da Câmara Cascudo, Dicionário do Folclore Brasileiro (1954)
  3. Luís da Câmara Cascudo, Lendas Brasileiras (1945)

Este texto foi escrito com base na literatura sobre folclore brasileiro. Notou algum erro ou conhece outra versão desta história? Envie uma sugestão.

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