Elemento · Regional

Carrancas do São Francisco

Também conhecido(a) como Carrancas, Cabeças de proa e Figuras de proa do Velho Chico

Para proteger a tripulação dos riscos da navegação e de espíritos maus, as barcas do Rio São Francisco levavam na proa esculturas de madeira com rosto feroz.

Comparar versões

Uma narrativa da tradição oral. O texto a seguir registra uma lenda ou costume do folclore brasileiro, transmitido de geração em geração como parte do patrimônio cultural do país — não como fato histórico comprovado. Esta história chegou até hoje em 3 versões diferentes, reunidas abaixo.

Origem

No trecho entre Pirapora, em Minas Gerais, e Juazeiro, na Bahia, consolidou-se entre o fim do século XIX e a metade do XX um costume sem equivalente em nenhum outro lugar: ornamentar a proa das barcas de carga do Rio São Francisco com peças de madeira talhada, as carrancas. A navegação europeia já tinha longa tradição de figuras de proa, mas o estilo desenvolvido no Velho Chico foi totalmente próprio.

Rostos entre humano e animal, bocas escancaradas, dentes visíveis, olhos esbugalhados, jubas que lembram leões ou cavalos: eis o que substituiu, no São Francisco, as sereias e figuras femininas típicas das embarcações europeias. Paulo Pardal, autor de obra de referência sobre o tema, atribui esses traços à criatividade de artesãos locais, que misturaram elementos europeus, africanos e sertanejos.

Francisco Biquiba dy Lafuente Guarany, o Mestre Guarany, natural de Santa Maria da Vitória, na Bahia, figura entre os artesãos mais lembrados desse ofício, hoje disputado por museus e colecionadores. Vapores, estradas e, mais tarde, as barragens tiraram das barcas sua função original de transporte, e as carrancas, perdendo também a sua, passaram a ser produzidas como arte popular e peça decorativa.

Descrição

Vermelho, azul, verde, branco: tons fortes costumavam colorir boa parte das carrancas, reforçando o efeito visual de uma cabeça grande e expressiva, boca aberta como num rugido, dentes afiados, nariz largo, orelhas salientes e juba volumosa. Fixadas na proa, pareciam vigiar o trecho de rio logo adiante da embarcação.

Três gemidos antes de um naufrágio: assim, segundo a crença, a carranca avisava do perigo, dando tempo para a tripulação se salvar. Para os barqueiros, ela tinha ainda papel protetor contra o Caboclo d'Água, as almas penadas e o mau-olhado que rondavam a navegação.

Reconhecidas à distância pela figura esculpida, as barcas usavam a carranca também como sinal de identidade, além da função mágica. Hoje, em feiras de artesanato, lojas e ateliês de cidades à beira do rio como Petrolina, Juazeiro e Pirapora, a peça continua sendo um dos maiores símbolos do São Francisco.

Características

  • Fixadas na proa das barcas de carga
  • Talhadas em madeira resistente, como o cedro
  • Rosto entre humano e animal, de expressão feroz
  • Boca escancarada, dentes visíveis e juba volumosa
  • Protegeriam contra o Caboclo d'Água e outros espíritos maus
  • Gemeriam três vezes como aviso antes de um naufrágio
  • Hoje, um dos símbolos do artesanato sanfranciscano

Versões da história

Como toda história passada de boca em boca, esta também muda conforme quem a conta e onde é contada. Veja a seguir as versões mais conhecidas:

Médio São Francisco (BA e MG)

Dificilmente um barqueiro experiente navegava sem a carranca, convencido de que o rosto feroz mantinha longe o Caboclo d'Água e as assombrações noturnas. Essa é a crença mais comum sobre a peça, voltada à proteção da embarcação e de sua equipe.

Comparar as versões lado a lado

Significado cultural

Arte, trabalho e crença reunidos num único objeto: assim se apresentam as carrancas. Correntes, bancos de areia, naufrágios, perigos reais da navegação, encontravam amparo simbólico no rosto feroz voltado para a frente da embarcação, que traduzia a coragem e a atenção necessárias para atravessar o rio.

De objeto funcional a peça decorativa e lembrança turística: essa passagem acompanhou as próprias transformações do Rio São Francisco. Entre as criações mais originais da arte popular brasileira, as carrancas preservam hoje a memória de um modo de vida ligado às barcas, que praticamente deixou de existir.

Curiosidades

  • Sem paralelo direto em outras culturas, as carrancas são consideradas por especialistas uma criação genuinamente brasileira.
  • O Mestre Guarany, de Santa Maria da Vitória (BA), está entre os escultores de carrancas mais estudados.
  • Afastar o mau-olhado continua sendo o motivo de se encontrar uma carranca na entrada de muitas casas brasileiras.
  • Paulo Pardal dedicou uma obra inteira ao estudo das carrancas e de seus criadores.

Fontes de referência

  1. Paulo Pardal, Carrancas do São Francisco (1974)
  2. Luís da Câmara Cascudo, Dicionário do Folclore Brasileiro (1954)
  3. Wilson Lins, O Médio São Francisco: uma sociedade de pastores e guerreiros (1952)

Este texto foi escrito com base na literatura sobre folclore brasileiro. Notou algum erro ou conhece outra versão desta história? Envie uma sugestão.

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